Semana passada fui assaltada indo pro trabalho e, sendo a terceira vez na vida, não sei não, mas tenho a ligeira impressão de que nasci pra isso. Lamentações à parte, um fato que chamou atenção do povo, além de muitos outros, foi que tudo ocorreu às 10 da manhã. É, gente, mas a situação tá difíci pra todo mundo e a bandidagem não vai perder tempo esperando escurecer para roubar, em minutos, aquilo que demoramos 1 mês pra conquistar e o celular que parcelamos em 12 vezes sem juros no cartão né? Afinal, como dizem por aí "Deus ajuda, quem cedo madruga".
E, além de estar no lugar errado, na hora errada - porque, convenhamos, chegar 10 horas no trabalho, de fato, é uma hora errada - sei qual foi um dos meus erros: fui isca fácil. Provavelmente porque estava assustada com a recepção calorosa de tiros que recebi assim que desci do busão, caminhei como uma mula errante, caipira recém chegada à cidade grande, olhando pra todos os lados e já me imaginando como mais uma estatística de bala perdida nos jornais, o contrário do que faço todos os dias na tentativa de intimidar a pilantrada do pedaço, andando com a cara do Exterminador do Futuro, em plena Av. Brasil.
Fase 2: Depois de me refugiar no barraco de uma senhorinha - como se uma parede fina fosse realmente capaz de me deixar ilesa a um tiro de fuzil, tsc tsc, doce ilusão - os tiros aparentemente cessaram e a próxima fase do jogo, como sempre, é mais difícil. Se caminhar pela Brasex com tiros da favela já é UCU, o que dirá de atravessar uma longa passarela, que me leva, praticamente, pra dentro dela? Foi o dilema que tive, o qual anunciou com letras em neón na minha testa "Ei, estou com medo! Podem me assaltar à vontade!!!", embundecendo ainda mais a minha cara amedrontada.
Encarei as escadas, respirei fundo, orei (sim, eu oro) e munida de
toda coragem e intrepidez que descobri que tinha, decidi subir e me arriscar alguns metros do chão, e me senti como aqueles patinhos no parque de diversão, correndo afoitos para não serem atingidos por alguma criança má, sedenta pelo carrinho de controle remoto ou um urso gigante que, com certeza, ela não vai ganhar. No ímpeto de bravura de Xena, a princesa guerreira, eu nem imaginava que o perigo estava na verdade ali embaixo, cheio de crack, com uma peixeira na cintura e o mais importante: com uma camisa do Vasco.

(continua...)